Atalho pedológico

Guia de campo: como classificar solos passo a passo

Da trincheira à ordem e à subordem do SiBCS: o método do Atalho Pedológico, de Hélio do Prado, para identificar o solo no campo por um caminho mais curto.

Classificar um solo no campo é como percorrer um labirinto: existe mais de um caminho, e o objetivo é achar o mais curto. Este guia segue o método do Atalho Pedológico, de Hélio do Prado, para chegar à ordem (primeiro nível) e à subordem (segundo nível) do SiBCS.

Passo 1: escolha o local e abra a trincheira

Estude o perfil em local sem erosão e sem adição de materiais, em trincheira ou em barranco de estrada, bem iluminado pelo sol, para enxergar melhor os limites dos horizontes. No barranco, raspe a parede vertical cerca de 30 cm para dentro: o objetivo é ver o solo nas condições naturais, e não ressecado pelo sol, que altera a estrutura e a consistência seca e úmida.

  • Solos profundos e muito profundos: trincheira de 1,5 m x 1,5 m e 1,5 a 2,0 m de profundidade, com degraus para acesso.
  • Moderadamente profundos: 1,0 a 1,5 m de profundidade.
  • Rasos: menos de 1,0 m.
  • Não jogue solo do fundo da trincheira sobre o horizonte superficial (A) na face escolhida para a descrição.
Trincheira aberta em solo vermelho, com escada de alumínio para acesso ao fundo
Trincheira em solo vermelho, com degraus e escada de acesso.

Passo 2: separe os horizontes

Com uma faca ou canivete, separe os horizontes pelas variações de cor, textura, estrutura, consistência e, se existir, cerosidade. Anote as espessuras e os tipos de transição entre eles.

Passo 3: colete as amostras

Comece pelos horizontes mais profundos, para evitar contaminação, e anote a profundidade de cada coleta. Guarde o solo em sacos plásticos grampeados e etiquetados com o número do local e as profundidades.

Cuidados com a umidade e com o trado

Evite examinar o perfil com mais umidade do que o normal, porque a chuva altera a avaliação. Nos solos em que a classificação depende de cerosidade, adensamento, fendilhamento ou retração, espere de 5 a 7 dias depois da chuva.

A tradagem só substitui a trincheira para quem tem grande conhecimento da morfologia e do contexto de ocorrência do solo na paisagem, porque o trado não permite avaliar estrutura, cerosidade e consistência úmida em condição natural.

Passo 4: há horizonte B? Qual a diferença de argila?

Nem todo solo tem horizonte B, e a profundidade dele não é fixa; em geral aparece dentro de 100 cm da superfície. Quando existe, a pergunta seguinte é quanto a argila aumenta do horizonte A para o B. A diferença é baixa quando o aumento máximo de argila no B é de:

  • até 1,8 vez a argila média do A, se o A tem menos de 15% de argila;
  • até 1,7 vez, se o A tem de 16 a 40% de argila;
  • até 1,5 vez, se o A tem mais de 40% de argila.

Passou desse limite, a distribuição de argila no perfil é alta. Exemplo: com 20% de argila no horizonte A, usa-se o fator 1,7; o valor máximo no B para uma diferença baixa é 34% (20 x 1,7). No campo, a argila se estima pelo tato.

Passo 5: encontre o grupo e a ordem

A combinação entre a presença do horizonte B e a diferença de argila leva a um dos cinco grupos do livro. Em cada grupo estão as ordens possíveis:

GrupoCaracterística do perfilOrdens
IB diagnóstico com baixa diferença de argila (latossólico, nítico, incipiente ou espódico)Cambissolos, Chernossolos, Espodossolos, Gleissolos, Latossolos, Nitossolos, Plintossolos
IIB textural (alta diferença de argila)Argissolos, Chernossolos, Gleissolos, Luvissolos, Planossolos, Plintossolos
IIISem horizonte B: sequência A-CChernossolos (Rêndzicos), Gleissolos, Neossolos, Organossolos, Vertissolos
IVSem horizonte B: sequência A-RNeossolos Litólicos
VSem horizonte B: sequência A-FPlintossolos Pétricos

Cada página de ordem traz as características do horizonte A, B ou C e as comparações que ajudam a separar solos parecidos. Veja a lista completa em classes de solo.

Passo 6: subordem, pela cor, textura e horizonte superficial

No segundo nível (subordem), o caminho é a cor do horizonte B, a textura e o tipo de horizonte superficial. Por exemplo, nos Latossolos e nos Argissolos a subordem é definida pelo matiz do horizonte B: 2,5 YR ou 10 R (Vermelhos), 5 YR (Vermelho-Amarelos) e 7,5 YR ou 10 YR (Amarelos). As definições de cada subordem estão na página da ordem.

Como anotar a cor do solo

A cor se examina com a carta de Munsell, de rotina no solo úmido. Ela tem três componentes: o matiz (proporção entre o vermelho e o amarelo, de 5 R a 5 Y), o valor (tonalidade de cinza, de 0 a 10) e o croma (intensidade, de 0 a 20). Croma zero é cinza puro (notação N).

Exemplo de anotação: 7,5 YR 4/2 significa matiz 7,5 YR, valor 4 e croma 2. No matiz 10 R a contribuição do vermelho é de 100%; em 5 YR, de 50% de cada cor; em 7,5 YR, 62,5% de amarelo e 37,5% de vermelho.

Perguntas frequentes

Como abrir uma trincheira para classificar o solo?

Em local sem erosão e sem adição de materiais. As dimensões usuais são 1,5 m de comprimento por 1,5 m de largura e 1,5 a 2,0 m de profundidade em solos profundos e muito profundos, com degraus para acesso. Não jogue solo do fundo na face onde será feita a descrição.

Dá para classificar o solo só com o trado?

Só com muito conhecimento de morfologia e do contexto na paisagem. Com o trado não é possível avaliar estrutura, cerosidade e consistência úmida, porque a força de girar o trado torce os agregados do horizonte subsuperficial.

Quanto tempo esperar depois da chuva para examinar o perfil?

De 5 a 7 dias, principalmente para solos em que a avaliação depende de cerosidade (Nitossolos), do adensamento (Latossolos e Argissolos dos tabuleiros costeiros e de parte da região Norte), do fendilhamento (Vertissolos) ou da retração (Latossolos Brunos e Nitossolos Brunos).

Como estimar a argila no campo?

Pela pegajosidade do solo molhado entre os dedos. O silte é reconhecido pela sensação sedosa, e quando seco parece talco. Quando não for possível avaliar a textura no campo, a análise granulométrica pelo método da pipeta é a mais indicada.

Para continuar

Fonte: PRADO, H. Atalho pedológico: para classificar solos no campo. Piracicaba: edição do autor, 2013. O conteúdo segue o Sistema Brasileiro de Classificação de Solos adotado no livro; a edição atual do SiBCS (Embrapa, 2018) pode trazer ajustes em critérios e nomes.

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